Pedido de gestação de substituição
15 de Novembro de 2017.
Centro de Ciência em Sintra extinto
28 de Novembro de 2017.

Martha e extinção de espécies

Estudo apresenta os resultados de uma análise genética a alguns exemplares do pombo-passageiro, extinto desde 1914, que fazem parte de colecções de museus.

Chamaram Martha ao último pombo-passageiro que vivia num jardim zoológico em Cincinnati, nos EUA. Morreu a 1 de Setembro de 1914 e com Marthadesapareceu definitivamente da Terra toda a sua espécie (Ectopistes migratorius) que, dizem os registos do passado, chegava a escurecer o dia por minutos com bandos de milhões de aves a passar no céu. Uma equipa de investigadores, que integra uma cientista portuguesa a trabalhar na Universidade de Copenhaga (Dinamarca), publicou um artigo na revista Science com os resultados de um estudo genético que quis ajudar a perceber como se extinguiu uma espécie com uma população desta dimensão. Enquanto isso, há já projectos de edição genética a tentar “ressuscitar” o pombo-passageiro ou algo muito parecido com ele.

Uma equipa de cientistas liderada pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade da Califórnia, nos EUA, investigou este caso através da genética. Conclui-se que, apesar de em certas regiões do genoma ter sido encontrada a esperada diversidade genética, noutras zonas havia muito poucas diferenças. Assim, a selecção natural que permitiria salvar alguns exemplares e manter esta espécie não terá cumprido o seu papel pelo facto de estes animais serem geneticamente demasiado parecidos. Os investigadores recolheram amostras de pequenos pedaços da pele de 200 pombos-passageiros empalhados que se encontram guardados em vários museus de todo o mundo. Depois, analisaram genomas de quatro destes pombos-passageiro e compararam os resultados com a mesma análise feita a um dos seus parentes mais próximos, a pomba-de-coleira-branca.

Foi assim que perceberam que a dimensão da população de pombos-passageiro terá facilitado a sua rápida adaptação evolutiva. Ou seja, rapidamente se adaptaram ao ambiente, eliminando algumas mutações prejudiciais e mantendo genes que lhes forneciam vantagens. E isto, dito assim, nem parece nada mau. O problema é que o terão feito todos de forma muito semelhante. E quando surgiu uma mudança, uma nova ameaça no ambiente onde estavam inseridos, todos tinham as mesmas armas que, reza a história, não chegaram para sobreviverem. “Este é um exemplo claro de que a conservação deve ser feita no ambiente natural, e que se devem recolher dados relativos ao número de indivíduos e à sua diversidade fenotípica, mas também dados genéticos para um diagnóstico mais completo relativo ao risco de extinção”, refere ao PÚBLICO Rute Fonseca, investigadora portuguesa no Centro de Bioinformática da Universidade de Copenhaga, que é uma das autoras do estudo.

Melhor do que recuperar?

A cientista que fez o processamento de dados da sequenciação genética sublinha que este estudo mostra que “o tamanho real de uma população per se não é necessariamente indicativo da capacidade de sobrevivência de uma espécie, especialmente quando esta é confrontada com alterações drásticas no seu habitat, climáticas ou outras”. Assim, insiste, a “quantificação da diversidade genética, se possível, pode ser um complemento importante na determinação do risco de extinção de qualquer espécie, e essencial para o estabelecimento de programas adequados de conservação”.

O pombo-passageiro já não existe, estamos esclarecidos. Mas isso significa que nunca voltará a existir? As novas técnicas de edição genética fornecem-nos hoje ferramentas que podem permitir conceber planos ambiciosos de “recuperação” de espécies. E há já algumas tentativas nos laboratórios, para esta e outras espécies, que passam, por exemplo, por procurar inserir genes característicos das espécies a recuperar em parentes próximos. “Os projectos que estão em curso para ‘recuperar’ espécies extintas – seja este pombo, o auroque [um bovino de grande porte extinto] ou a guaga [um mamífero extinto parecido com a zebra] – trabalham no sentido de recuperar um fenótipo que se assemelha ao da espécie extinta”, explica Rute Fonseca.

No entanto, a investigadora realça que “esse projecto de Parque Jurássico estará sempre incompleto sem conhecermos a dimensão de diversidade original da espécie, e vai depender também muito da quantidade de diferenças na estrutura e sequência do genoma dos tais ‘primos’, parentes próximos”. Há, segundo Rute Fonseca, um outro caminho que será mais importante do que tentar “ressuscitar” uma espécie extinta: “Melhor e mais fácil seria mesmo evitar que as espécies fossem extintas.”

Notícia do Público de 22/11/2017.