Chip debaixo da pele
5 de Agosto de 2017.
Solidão pior que a obesidade
11 de Agosto de 2017.

Viver para sempre jovem

Há coisas inacreditáveis que são mesmo verdade e outras que parecem certas mas que não resistem a uma análise crítica. Costumava dizer em tom de brincadeira que a ciência nos vai permitir viver para sempre quando estivermos todos mortos.

Ao contrário do que o seu nome poderia indicar, o trabalho de George Church (“igreja”) pode ser considerado algo iconoclasta. O investigador da Faculdade de Medicina de Harvard acredita que dentro de cinco a seis anos poderemos conseguir reverter o processo de envelhecimento em seres humanos. Muitos antes dele o prometeram, mas todos envelheceram e acabaram por morrer. Mas desta vez talvez seja diferente. Church não é um autoproclamado génio solitário, há boas razões para que a sua previsão seja levada a sério. Os progressos da engenharia genética nas últimas décadas parecem quase ficção científica. E o título do recente livro de Sílvia Curado, investigadora portuguesa na Universidade de Nova Iorque (EUA), indicia isso mesmo: Engenharia Genética: O Futuro já Começou (Glaciar, 2017).

As nossas ideias acerca do envelhecimento têm vindo a mudar. Antes pensava-se que o envelhecimento resultava de uma vitória da entropia nas células, que a confusão se impunha lentamente à ordem através da acumulação de estragos e mutações genéticas ao longo da vida. Nessa perspectiva o envelhecimento é irreversível, tal como uma vela que arde não pode ser reconstituída. Afinal, parece que não é bem assim. Há hoje provas de que o envelhecimento é, pelo menos em parte, um processo programado, bastante controlado e regulado geneticamente. Para Sílvia Curado “torna-se cada vez mais claro que os genes não determinam somente a cor dos nossos olhos, do nosso cabelo, a nossa estatura, como determinam também a forma como envelhecemos”.

Há espécies biologicamente próximas, como o rato doméstico (que vive cerca de dois anos) e o morcego (até aos 41) que envelhecem com ritmos muito diferentes. Dentro da mesma espécie também há indivíduos que vivem significativamente mais do que outros. As actuais técnicas permitem encontrar variações genéticas que são comuns nas pessoas que vivem mais de 100 anos, mas que estão ausentes na generalidade das que vivem menos.

Foram já identificados alguns genes e respectivas mutações que permitem prolongar a vida de vários seres vivos. Um deles é o gene daf-2. Uma modificação desse gene permite mais do que duplicar o tempo de vida de um verme (C. elegans), de 30 para 65 dias. Existe um gene correspondente nos seres humanos e algumas pessoas que por acaso têm uma mutação natural nesse gene parecem viver mais tempo.

Tudo isto poderia ser uma mera curiosidade que nos permitira, quanto muito, identificar os sortudos geneticamente programados para viver mais e, quem sabe, baixar as suas apólices de seguro, se não fosse uma sigla complicada mas poderosa: CRISPR (Clustered regularly interspaced short palindromic repeats). São padrões que se repetem no ADN de bactérias e que contêm entre eles sequências de ADN de vírus que infectam essas bactérias. É uma espécie de cadastro, que permite às bactérias manterem um registo de invasores conhecidos. Este sistema de defesa tem um segundo componente, uma espécie de “polícia assassino” que, na posse da identificação do criminoso (vírus), corta o seu ADN em pedaços (esse “polícia” é uma enzima chamada Cas).

Usando este sistema, que aprendemos com as bactérias, podemos hoje editar o ADN de qualquer organismo. Conseguimos cortar e colar ADN dentro de células como fazemos com as palavras num processador de texto. Quando o ADN é aberto, é possível manipular o processo de auto-reparação das células para que o fragmento de ADN substituto seja aquele que nós quisermos. Na prática, é possível substituir um gene defeituoso que causa uma doença por uma cópia saudável. Isso já foi feito em ratinhos, em culturas de células e em embriões humanos. Há várias maneiras de fazer chegar estas ferramentas de terapia genética ao interior das células-alvo. Podem ir à boleia de um vírus ou dentro de cápsulas de nanopartículas. O potencial para tratar doenças genéticas é tremendo.

Mas voltemos ao envelhecimento. Nas palavras de Sílvia Curado: “Em linhas gerais, o mesmo conceito aplicado à terapia de determinadas doenças genéticas – a identificação da causa genética, correcção através da edição de genes e controlo da sua expressão – poderá ser aplicado para tentar reverter o envelhecimento e prolongar a vida humana.”

Há uma outra ideia a ter em conta. A maior parte das nossas células têm exactamente o mesmo material genético. O que lhes permite terem funções específicas são os diferentes genes que em cada uma das células são activados. Imagine o genoma humano como um livro. Cada célula adulta só lê o capítulo que lhe interessa. Mas, à medida que envelhecemos, cada uma das nossas células também passa a ler algumas páginas diferentes do seu livro genético. “Alguns genes que controlam a saúde celular passam a estar menos activos e outros que promovem determinadas patologias mais activos.” O conhecimento dessas alterações na activação dos genes e das maneiras de as regular poderá permitir um rejuvenescimento genético.

Hoje não é possível reverter o envelhecimento, mas é plausível que venha a ser. Será esse um novo foco de desigualdade no futuro, com a juventude a assumir-se como um sinal exterior de riqueza? Poderemos ter quantos filhos? Por agora, estas interrogações permanecem no foro da imaginação, mas poderemos ter que vir a pensar nelas.

Notícia do Público de 06/08/2017.