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A Madeira na nossa Europa

A nossa História, na nossa Europa!

A Imprensa Académica, a chancela editorial da Associação Académica da Universidade da Madeira apresentou, no dia 6 de Setembro, no Espaço Yehuni Mehudi do Parlamento Europeu, em Bruxelas, o livro History of Funchal. Trata-se de uma publicação inédita, traduzida para a Língua Inglesa, do original de Rui Carita, publicado pela primeira vez em Dezembro de 2013. A obra conta com um prefácio da eurodeputada e professora universitária Liliana Rodrigues.

Este evento constituiu um momento único de afirmação da Madeira no panorama internacional, e as centenas de convidados presentes, dos quais se destacam Embaixadores e diversos Eurodeputados, puderam desfrutar de vários momentos memoráveis que deliciaram os sentidos e permitiram dar a conhecer uma pequena, mas importante, parte da nossa Região.

Tiveram uso da palavra, como poderá consultar mais abaixo, o Presidente da AAUMa, Carlos Abreu, o Magnífico Reitor da Universidade da Madeira, José Carmo, e a anfitriã do evento, a Eurodeputada, e também professora da nossa Academia, Liliana Rodrigues.

Intervenção do Presidente da AAUMa, Carlos Abreu

Para alguns pode parecer estranho que uma Associação Académica seja a editora de uma obra sobre a História do Funchal. A desconfiança aumenta se eu contar que, em pouco mais de três anos, já são mais de 20 obras editadas na área da História, da Linguística, da Saúde e da Literatura. Acredito que nada disso é estranho ou despropositado. O que estamos a fazer, além de ser parte da nossa missão, é o espírito que construiu e que mantém o projecto europeu. Juntos somos cada vez mais fortes e é esta diversidade que nos une.

Então vejam o que a edição da História do Funchal envolveu: convidamos o autor, o professor Rui Carita, um apaixonado pela Madeira e profundo conhecedor da sua História e Cultura, para escrever um livro que pudesse abraçar os mais de cinco séculos do Funchal e que fosse alvo de uma tradução que o tornasse acessível a ainda mais leitores. Depois, envolvemos estudantes e antigos estudantes da Universidade da Madeira no processo de paginação e de tradução. Por fim, integramos três ingleses no processo de revisão, dois deles que colaboram com a Associação Académica ao abrigo do programa Erasmus+. Depois disso tudo sonhámos apresentar toda esta multiculturalidade nesta casa que também representa a diversidade deste projecto europeu que tanto nos orgulha. Assim, a eurodeputada Liliana Rodrigues ousou convidar esta Associação Académica, que pertence à Universidade pública portuguesa mais jovem do país, e que também tem o prazer de ser a casa onde ela lecciona.

Termino, portanto, a reforçar a vontade que os estudantes da Universidade da Madeira têm em integrar esta Europa e, mais do que isso, em contribuir para ela. Este nosso contributo, materializado através desta obra, é, também, um testemunho da nossa crença em que a Madeira, enquanto região de um turismo de excelência, tem na sua cultura um dos pilares de afirmação e consolidação desse segmento.

A todos, com uma palavra especial para a eurodeputada Liliana Rodrigues, a nossa estimada professora, o agradecimento de todos os envolvidos neste trabalho, que hoje vos apresentamos.

 

Intervenção do Reitor da Universidade da Madeira, José Carmo

Gostaria de começar por cumprimentar todos os presentes e agradecer o convite da Senhora Eurodeputada, e minha colega, Professora Liliana Rodrigues, para estar presente neste evento, onde se pretende contribuir para a divulgação do património cultural da Ilha da Madeira, e apresentar o livro History of Funchal, editado pela Associação Académica da Universidade da Madeira.

Na realidade, a ilha portuguesa da Madeira não só é um local de uma rara beleza e excelente clima, conhecido também pela sua biodiversidade, como tem uma história, marcada por extraordinárias obras de Engenharia, para aproveitamento da natureza, como as levadas, bem como por um património cultural extremamente rico e não muito divulgado.

Assim, constituindo-se a Universidade da Madeira como um dos atores fundamentais para o estudo e divulgação do património da Madeira, não poderia deixar de aceitar o convite para estar aqui
presente.

Como muitos não conhecerão a Universidade da Madeira, permitam-me algumas palavras sobre ela, mas muito breves, para não alongar a minha intervenção.

A Universidade da Madeira é instituição muito jovem, que foi criada em 1988 e que fará, portanto, no próximo ano de 2018, trinta anos. É uma universidade pequena, com perto de 3000 estudantes, um pouco mais de 200 docentes e cerca de 130 funcionários.

Apesar da sua pequena escala (que constitui um dos seus problemas, a par da sua insularidade e ultraperiferia), a Universidade cobre a maior parte das principais áreas do saber, nomeadamente ao nível dos primeiros ciclos de estudos superiores, de modo a poder contribuir para o desenvolvimento equilibrado e sustentável da Região.

Naturalmente, a nível de investigação, a Universidade tem-se especializado num conjunto mais restrito de áreas, conhecidas. Atualmente, recorrendo também aos fundos europeus, pretendemos
desenvolver a área do turismo e criar um centro de investigação de excelência nesse domínio, a par de um Observatório do Turismo que já lideramos. Por outro lado, procuramos tirar partido de termos as diversas áreas do saber juntas, num mesmo espaço, para potenciar uma partilha do conhecimento e ações de investigação interdisciplinares e multidisciplinares.

A Universidade da Madeira tem sido um elemento fundamental, nomeadamente, na transformação social da sociedade Madeirense e o nosso principal objetivo e missão é constituir-nos como um ator indispensável no desenvolvimento económico, social e cultural da Região.

Para a realização desse objetivo e até como forma de ultrapassar o nosso problema de escala e insularidade, o nosso segundo vetor estratégico é a internacionalização, e o seu aprofundamento, quer ao nível da investigação, quer ao nível da formação. E ao nível da formação não só é importante a capacidade de atrair estudantes de fora, mas também a possibilidade de os nossos estudantes poderem realizar parte dos seus cursos (um semestre ou um ano) no exterior, numa outra universidade.

E aqui o Espaço Europeu e o programa Erasmus desempenha um papel fundamental. Trata-se, de facto, de um programa extraordinário da União Europeia, com múltiplos benefícios, que vão desde a contribuição para a criação nos jovens do espírito e do conceito de cidadão europeu, ao conhecimento de outros costumes e contacto com colegas de outras nacionalidades, tão importantes
neste mundo cada vez mais global, até ao aumento da confiança em si próprios e à constatação da qualidade da formação que lhe é ministrada na sua universidade de origem, decorrentes de obterem classificações tão boas ou melhores que os seus colegas oriundos de outros países nas suas permanências no estrangeiro.

E aproveitava esta menção à internacionalização e ao programa Erasmus, para uma referência à apresentação da obra que nos trás aqui hoje. Trata-se de uma obra escrita por um professor reformado da Universidade da Madeira, Rui Carita, e que é editada pela Imprensa Académica, numa edição inédita integrada no programa Erasmus+. A edição da História do Funchal em inglês é importante seja para os turistas que visitam a Madeira, seja para os estudantes, professores e investigadores que se encontram na Universidade da Madeira.

Constitui, assim, um importante contributo para a divulgação do nosso património histórico e cultural, correspondendo a uma atividade em que a nossa Associação de Estudantes se tem empenhado, a par de outras ações que tem desenvolvido no âmbito da responsabilidade social, do empreendedorismo, do desporto, música, etc., de que vão ver um exemplo hoje com a atuação do grupo de fados da Associação.

A par do apoio ao estudo dos alunos, estas ações permitem desenvolver outro tipo de competências, ajudando a criar alunos mais solidários, cultos e atuantes.

Termino, precisamente, agradecendo à Associação Académica toda a atividade que tem desenvolvido e de que a Universidade tanto se orgulha, e agradecendo a todos pela vossa presença.

Intervenção da Eurodeputada Liliana Rodrigues

Um grande agradecimento à Associação Académica da Universidade da Madeira. Aos estudantes. Os meus estudantes.

Ao querido Professor Rui Carita, que não pode estar connosco, mas que pelo seu conhecimento nos juntou a todos, hoje aqui, através do seu livro.

Assim cabe-me apresentar o livro. Mas deixem-me falar sobre este texto em inglês antes de falar sobre a História do Funchal escrita por Rui Carita.

Este livro foi traduzido por estudantes e antigos estudantes da Universidade da Madeira. Ele representa o desafio do esforço da união.

Obrigado ainda aos Estudantes Erasmus e a todos os que deram um precioso contributo para que a nossa cultura pudesse estar presente na Europa.

Este livro reflecte conhecimento que é aqui partilhado por Rui Carita. Mas sem os estudantes estaria confinado à língua portuguesa. Um bem-haja à nossa juventude europeia.

Rui Carita é um dos maiores especialistas em História da Madeira. Ele um colega de história e eu Professora de filosofia.

E é sempre muito difícil a filosofia analisar a história pois, em geral, é a história que nos dá conta dos contextos filosóficos. Assim, perdoe-me o historiador, colega e amigo Rui Carita pelos meus olhos não terem a astúcia de quem compreende o mundo numa especificidade que transcende a própria parte.

Obrigada por isso e por me permitirem fazer parte de mais uma obra de divulgação histórica e cultural, agora marcada pela Filosofia.

As notas introdutórias de um livro histórico, aos olhos de uma Professora de Filosofia, são sempre tarefas de grandes indecisões, precisamente por tudo ser fundamental. Mais ainda por essa Professora ser do Funchal, capital da Região Autónoma da Madeira, e que percebe o cosmopolitismo desta cidade que desde sempre foi um local de passagem para o gosto alemão, mas também para flamengos e italianos. Desde sempre, o Funchal foi visto como um centro internacional de negócios (e que, ironicamente, hoje se mantém com outras características na zona este da ilha) e foi pelo açúcar que assumimos aquilo a que podemos chamar de experimentalismo capitalista. “Num curto prazo de tempo, a Madeira, (…) transformava-se na porta cosmopolita e internacional da Europa para o Novo Mundo” (Carita, R. 2013. p.6).

Percorrer o livro através do seu índice permite ao leitor escolher fragmentos da nossa história sem que, no entanto, seja perdido o fio condutor que liga todos os capítulos. Do povoamento no século XV, “que surgiu na sequência do descerco de Ceuta em 1418” (idem, p.10), ao Funchal do início do século XXI fica sempre patente a “progressiva conquista da autonomia da Região Autónoma da Madeira, cimentada na competitividade do Funchal como um importante polo de Turismo Internacional (idem, p. 237).

Turismo esse que, já no século XVIII, com características terapêuticas e particularmente vocacionado para o tratamento de doenças pulmonares, fez com que a Madeira fosse conhecida como um “Sanatorium natural” (idem, p.149). Por aqui, pelo Funchal, passaram escritores, poetas, duques e princesas, rainhas e imperatrizes.

Não é por acaso que a Madeira era o “paraíso dos naturalistas” e o seu exotismo fez atracar no porto do Funchal, em 1768, o Comandante James Cook e outros espíritos curiosos como Joseph Banks, Thomas Heberden, Daniel Charles Solander e o astrónomo Charles Green. “A edição das viagens de Cook, depois de 1777, seguida de numerosas edições e traduções, fez da Ilha um centro de interesse muito especial para geólogos, botânicos, zoologistas e outros cientistas europeus” (idem, p. 134).

O Funchal torna-se uma autêntica cidade dos descobrimentos em todos os sentidos que o verbo descobrir tem, inclusive do espírito crítico e reivindicativo das suas populações. Não é por acaso que os “seus moradores (…) numa sessão do senado do Funchal, realizada a 20 de abril de 1489, chegam a alegar ao duque que a obra da Igreja Grande (…) não era cousa possível (…)” e o “duque acusa os moradores de não estarem dispostos a querer fazer a igreja (…)” (idem, p.47). A vereação do Funchal, nessa altura, solicitou que apenas as gentes da terra fossem empregadas nessa obra (o que revela bem o espírito bairrista madeirense) e, depois de alguns impasses e só em 1493 (quatro anos depois), se iniciam as obras de construção da Igreja Grande e, em simultâneo, erguia-se, no outro lado da cidade, o Convento de Santa Clara.

Na verdade, olhando para este livro, não mudamos assim tanto como povo. Mantemos um certo espírito burguês, o que não é forçosamente uma adjetivação negativa, e orgulhamo-nos do que é nosso e do que somos. Estou a pensar no Vinho Madeira, nas nossas paisagens e no clima, na nossa capacidade hospitaleira, mas também na dimensão social e política.

Com a alegria da vinda da República em 1910, também vieram, logo depois, promessas por cumprir e “a extrema pobreza da maior parte da população obrigada a emigrar para não morrer de fome” (idem, p. 190).

Seis anos depois, a 3 de dezembro de 1916, o Funchal é bombardeado por três navios alemães e novo bombardeamento ocorre a 12 de dezembro de 1917. O alvo era as instalações de Santa Clara. Nos finais de abril de 1918, chega a notícia da batalha de La Liz, onde pereceram 7.500 portugueses e entre eles ilustres figuras da sociedade madeirense. No mesmo ano, no Outono, para defender o pequeno vapor San Miguel, que saíra do Funchal para ir buscar trigo aos Açores, o caça-minas Augusto de Castilho lançou-se sobre um submarino alemão. O comandante e tripulação morreram para salvar o vapor que trazia o trigo para as gentes da Madeira.

São este atos de coragem, de resiliência e de determinação que explicam a Revolta da Farinha de 1931 que nos servem de exemplo e que nos dão ânimo na luta contra as ditaduras e as injustiças. Esta revolta “teve consigo cerca de 2000 homens armados” (idem, p.220), mas o país não os acompanhou. A força do império foi maior e entre mortos e feridos no Caniçal e na Calheta venceu o
espírito colonialista.

Este livro fala-nos da nossa história. Mas é mais do que um livro histórico. Ele trata dos instantes que nos compõem como comunidade e como pessoas. Transcende a dimensão histórica e assume-se como um livro que fala de identidade. A nossa. Aquilo que fomos. Que somos e que continuaremos a ser. Um povo ilhéu numa cidade, situada num vale central, com aroma a funcho e cortada por três ribeiras, desde sempre aberta à globalização. Sintoma disso é que não só estamos espalhados pelos quatro cantos do mundo, como recebemos as gentes desses cantos.

O que pretendemos hoje aqui, queridos amigos, é que descubram os sabores, aromas e odores da Madeira e que através de um livro viajem pela história da sua capital, a belíssima cidade do Funchal.

Queridos estudantes, deixem-me que vos lance um desafio: escrevam um livro sobre a integração de uma região ultraperiférica na União Europeia. Escrevam sobre o que esta união deu à Madeira ao longo de 30 anos. Obrigada a todos por aqui estarem. Visitem a Madeira e a nossa Universidade.

Esta edição contou com o apoio da Associação de Promoção da Madeira pelo seu potencial na afirmação nacional e internacional da Madeira como ponto de referência em activos diferenciadores como a História e a Cultura, pelo carácter inovador, pelo rigor científico presente em cada página e pela importância do conhecimento apresentado, que se reveste de grande importância para a manutenção da identidade única da Madeira face aos desafios decorrentes desta era contemporânea.

Imagens: (c) European Parliament 2017.

Sobre a Imprensa Académica

A actividade da Imprensa Académica, chancela editorial da AAUMa, pretende fomentar a investigação científica nos estudantes e nos antigos estudantes da UMa, divulgar os trabalhos produzidos pelos membros da nossa Universidade e aproximar o leitor do conhecimento científico que não pode ficar restrito a um círculo próximo do ensino universitário. Aliado a este propósito objectivou-se dedicar estas publicações à angariação de receitas para o apoio social aos estudantes da UMa. Acreditamos que a produção e a venda de livros é um trabalho moroso, mas sabemos que é o caminho certo para o sucesso académico da nossa Comunidade Académica.

A equipa editorial da Imprensa Académica é composta por estudantes e por antigos estudantes da Universidade da Madeira (UMa). Profissionais, titulares do grau de licenciado ou do grau de mestre, dão formação e trabalham em conjunto com vários estudantes, investigadores e docentes.